Supervisão abusiva e o silêncio dos estagiários

Harrison Bachion Ceribeli, Sofia Bothrel Fernandes, Carolina Machado Saraiva

Resumo


Este artigo teve como objetivo de pesquisa identificar os diferentes tipos de supervisão abusiva que os estagiários sofrem dentro das organizações e como isso afeta a disposição deles de permanecerem em silêncio, deixando de compartilhar informações, opiniões e sugestões de melhoria. Foi utilizado o método de entrevista em profundidade, sendo entrevistados dez estagiários, alunos do curso de Administração e residentes na cidade de Franca, Estado de São Paulo. Após ponderar os resultados obtidos nas entrevistas, concluiu-se que existem diversas maneiras de supervisão abusiva que os estagiários sofrem em seu ambiente de trabalho, tais como gritos do supervisor, atribuição de culpa de maneira inadequada, crítica em público e ridicularização em público. As reações mais comuns a essas situações foram os sentimentos de humilhação e frustração, sentimentos de desconforto e constrangimento, sensação de estar sendo coagido, injustiçado e ofendido, desmotivação e, em algumas situações, sensação de não ser capaz e de abandono, ou seja, a supervisão abusiva afeta o estado emocional dos estudantes. É importante assinalar que não são apenas os estagiários que são afetados negativamente pela supervisão abusiva, mas também a organização. Por meio das entrevistas conduzidas, verificou-se que, quando o supervisor de estágio se comporta de maneira abusiva, os estudantes optam pelo silêncio, o que significa que eles escolhem não compartilhar informações importantes, sugestões e ideias.


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